alteridade e exotismo: o BRasil de blaise cendrars
Maria Teresa de Freitas - USP
De suas longas estadas no Brasil, no decorrer dos anos 20, Blaise Cendrars iria se constituir um imaginário particularmente rico, que oscila freqüentemente entre a realidade e a ficção. Quando, nos anos 30, o grande escritor se torna – provisoriamente – um grande repórter, sua atividade principal gravitando em torno do jornalismo de grande difusão, irá ele explorar esse imaginário: entre as inúmeras "reportagens" que publicará então, encontram-se algumas, tão saborosas quanto instrutivas, que enfocam diferentes aspectos da realidade brasileira. A maioria delas serão, posteriormente, mais ou menos remanejadas e inseridas nas suas coletâneas de contos – o que reflete seu caráter mais literário que jornalístico.
Além de revelar um aspecto inédito da escritura cendrarsiana, esses textos mostram a maneira original pela qual o escritor mobiliza, renovando-os, grande número de mitos brasileiros, contribuindo assim para imprimir uma certa visão da nossa realidade no imaginário coletivo francês da época.
É o que visa a analisar este estudo. Para tanto, examinaremos aqui os textos "brasileiros" de Cendrars que foram, inicialmente, publicados como reportagens – e que apresentam portanto, ao menos aparentemente, algumas das características desse gênero jornalístico, tais como: aspecto formal (visual e estilístico) adequado ao veículo – de cunho informativo – e a seu público, condições específicas de enunciação – pessoal, porém objetiva –, veracidade do relato, que versará, em princípio em torno de uma realidade factual, atual e de interesse geral.
Considerando-se esses diferentes aspectos, um critério essencial determinou a escolha do corpus do presente estudo – e guiará também a análise proposta: as condições de recepção dos textos no momento de sua publicação. Assim, serão analisados aqui os textos jornalísticos de Cendrars que, além de colocarem em cena um determinado aspecto da realidade brasileira, foram apresentados como reportagem quando de sua primeira publicação – e que, portanto, foram lidos como tal. O que significa que foram tomados por verídicos – quer o sejam quer não –, e que, conseqüentemente, participaram da formação do imaginário coletivo da época: tornam-se assim criadores de sentido, na medida em que são responsáveis pela imagem do Brasil que veicularam então.
São eles:
1. "Devant les champs de café" (L'Intransigeant, Paris, 23 nov. 1927, p. 1)[1]; 2. "En (paquebot) transatlantique dans la forêt vierge"(Le Jour, Paris, du 1er au 6 nov. 35, p. 2)[2]; 3. "Pénitenciers pour Noirs" (Paris-Soir, du 30 mai au 2 juin 1938, p. 4)[3]; et 4. "Le Brésil change de capitale" (Marco Polo, n° 9, juillet 1955, pp. 4-11)[4].
Examinemos primeiramente cada um desses textos isoladamente, para em seguida estabelecer relações entre eles, e tirar daí as devidas conclusões.
1. "Devant les champs de café"
Publicado à primeira página de um jornal de altíssima tiragem à época (L'Intransigeant) – o que garante sua importância-, e em meio a diferentes informações de natureza política – o que garante sua seriedade –, o texto ilustra a coluna intitulada – em letras garrafais – "LE VERTIGE MODERNE" – o que garante sua atualidade. Análise da situação sócio-econômica do Brasil nos anos 20, a partir de um comentário perspicaz sobre a monocultura do café, trata-se de "um dos mais expressivos documentos sobre a euforia econômica paulista e o sentimento de onipotência dela resultante – que a crise de 1929, a revolução brasileira do ano seguinte e a política cafeeira da valorização se encarregariam de devolver ao lugar devido"[5]. Visão eufórica, pois, do progresso econômico do Brasil, que corresponde perfeitamente à realidade[6] – uma realidade que, aliás, entra perfeitamente também na mitologia pessoal de Cendrars, que, nesse momento específico de sua vida, pensava seriamente em enriquecer-se no Brasil por meio de grandes negócios – entre os quais, obviamente, a exploração do café.
Dado pois como verídico, e ligado a uma atualidade social da maior importância, o texto não poderá deixar de exercer sua influência sobre o grande público leitor de jornal da época – e portanto sobre o inconsciente coletivo francês dos anos 20.
2. "En paquebot transatlantique dans la forêt vierge"
Ilustrada por fotos, que visam a comprovar sua autenticidade, essa "reportagem de revista", que descreve um cruzeiro no Amazonas a bordo de um transatlântico para turistas europeus, é dada como tomada ao vivo pelo autor.
No entanto, a autenticidade da "reportagem" é duvidosa. Segundo consta, nas viagens que fez ao Brasil, Cendrars jamais esteve além das cidades históricas de Minas Gerais; o que viu do interior parece não ter ultrapassado os cafezais de algumas fazendas paulistas[7]. Suas duas pretensas viagens para nosso país na década de 30, na qualidade de enviado especial da imprensa parisiense, parecem ser frutos de sua imaginação. Mas... teria isso realmente grande importância? O que não viu, imaginou e recriou, com a ajuda, obviamente – como bem observa Alexandre Eulálio –, de um certo número de relatos de viagem, tais como A Jangada de Jules Verne, ou A Amazônia que eu vi, de Gastâo Cruls, que seus amigos brasileiros ter-lhe-iam talvez enviado[8].
3. "Pénitenciers pour Noirs" (Febrônio)
Apresentado como uma reportagem sobre as "famosas prisões de negros no Brasil", o artigo relata a história – verídica, na sua essência – de um criminoso louco, que se considerava o "Filho da Luz" (segundo tatuagem em seu peito), e cujos atrozes crimes encheram as páginas dos melhores jornais da época, no Rio de Janeiro, o famoso Febrônio.
Anunciado à primeira página do jornal, o texto, que se compõe de quatro partes subseqüentes, é também ilustrado por fotos, e anunciado por frases que, ao mesmo tempo em que procuram mostrar a autenticidade da reportagem, exploram o sensacionalismo do tema.
O estatuto desse texto coloca inúmeros problemas aos estudiosos da obra de Cendrars. Por um lado, sabe-se hoje que, contrariamente ao que afirma o editor, em 1926, o poeta não veio ao Brasil como enviado especial de Paris Soir; sabe-se também que essa "reportagem" aparenta-se aos contos de Cendrars, inspirados geralmente em fatos reais[9]; é igualmente verdade que o texto está mais para "estória" do que para reportagem, enquadrando-se na linha das projeções fantásticas de Cendrars, de seus combates pessoais contra monstros; tampouco resta dúvida de que o personagem de Febrônio fascinou Cendrars e provocou amplamente sua imaginação. Contudo, é fato também que:
1) Trata-se de um fato real, que teve grande repercussão no imaginário coletivo carioca da época, e cujos elementos comprovados pelos arquivos correspondem integralmente aos que constituem o texto de Cendrars[10].
2) O livro de Febrônio que Cendrars cita em seu texto, Revelações do Príncipe de Fogo, foi efetivamente por ele escrito e publicado. Era, por sinal, considerado por certos jovens modernistas da época como um "exemplar autóctone do melhor Surrealismo, enquanto escrita automática, transporte lírico e delírio consciente"[11]; todos os exemplares encontrados foram de fato confiscados e destruídos pela Polícia – mas sobrou um, recentemente descoberto em São Paulo[12], onde se pode verificar que as passagens citadas por Cendrars são textuais.
Concluiremos pois, juntamente com Eulálio, que o texto sobre Febrônio deve ser considerado como uma forma de reportagem: "Na galeria das personagens cendrarsianas, Febrônio [...] ganha destaque pela condição de personagem a anteriori, a quem o escritor quase nada emprestou de pessoal, desde que a matéria-prima era em si mesma cendrarsiana"[13].
Vemos novamente a realidade brasileira enquadrando-se perfeitamente na mitologia pessoal do escritor. E, embora Cendrars multiplique as interferências temáticas que irão fazer com que esse texto entre em ressonância com outros de sua autoria, fazendo-o assim adentrar cada vez mais seu universo imaginário pessoal, é preciso convir que o leitor de jornal não é, certamente, o mesmo das obras completas. A prova é que esse artigo foi tido como integralmente verídico[14], e que tudo no texto a isso levava.
Clara está, pois, a dimensão sociológica do artigo, sua repercussão social enquanto veículo de uma certa imagem do Brasil – tanto mais que se tratava de um jornal de alta circulação: 1 700 000 exemplares em 1939.
4. "Le Brésil change de capitale":
Ilustrado por fotos de lugares e personagens tipicamente brasileiros, o texto é apresentado da seguinte forma:
La capitale du Brésil ne sera plus Rio de Janeiro. Elle sera transporté à huit cents kilomètres de là, à l'intérieur des terres, dans l'état de Goyaz. Ce surprenant projet découle de la constitution brésilienne de 1946 et a pris forme administrative par une loi du 5 janvier 1953. Ministères, gouvernement, administrations de toutes sortes seront transportés dans cette région qui n'est reliée à la côte que par avions. C'est donc un démenagement sans précédent dans l'histoire qui se prépare, et dont Blaise Cendrars décrit ici – spécialement pour nos lecteurs – l'ampleur et les difficultés.
Tudo indica, pois, que se trata de uma reportagem: um assunto atual, uma história real, um interesse mediático indubitável. Todavia, de todas as "reportagens" brasileiras de Cendrars, é a que mais dista da verdadeira reportagem.
"Crônica [...] na qual o escritor antevê, numa miragem deslumbrante, o que será no ano 2000 a futura capital do Brasil" – no dizer de Brito Broca[15] –, o único elemento que se pode reconhecer aí como verdadeiro refere-se às precises sobre o local onde seria construída a nova capital – precises que, aparentemente, nosso repórter "emprestou" ao Padre Marie Tapie, em seu livro Chevauchées dans les forêts vierges du Brésil, sem citá-lo[16]. Os demais elementos constituem, todos, divagações em torno do tema: é a sua "Utopialand". Todavia, no ano seguinte, os jornais franceses anunciavam a construção, no planalto central do país, da nova capital do Brasil, inaugurada efetivamente quatro anos mais tarde.
Uma vez mais, a realidade brasileira revela-se conforme à mitologia pessoal de Cendrars, muito embora ela seja amplamente ultrapassada por sua transbordante imaginação. Além do que, como já se disse antes, se nada é verdadeiro nos detalhes, tudo é extremamente fiel ao espírito da realidade brasileira[17]. É certamente por isso que o próprio Gilberto Freyre considera Cendrars como um dos mais lúcidos intérpretes da civilização brasileira mestiça, e louva a acuidade de sua observação nas páginas por ele escritas sobre temas brasileiros[18].
*
Eis portanto aí as "reportagens" de Cendrars sobre o Brasil. A análise e a inter-relação desses textos permitir-nos-âo estabelecer um certo número de reflexões do mais alto interesse não apenas no que toca à relação entre Cendrars e sua "segunda pátria espiritual", mas sobretudo para o estudo da imagem do Brasil na França nos anos 30.
*
Antes de mais nada, observe-se aqui que, na interação verbal de seus textos "brasileiros", Cendrars não hesita em se forjar uma identidade de jornalista – ou, pelo menos, de "escritor de jornal". Com efeito, é sob o signo do jornalismo que o poeta coloca sua primeira viagem ao Brasil, em 1924; assim, em Eloge de la vie dangereuse (publicado em 1926), ouve-se o prisioneiro de Tiradentes, que o autor-narrador interroga, dizer-lhe: "Vous qui écrivez dans les journaux...". Além do mais, o texto sobre o café é efetivamente publicado num jornal do Rio, em 1927 (edição comemorativa do bicentenário do café), sob o título de "La métaphysique du café". E, em 1935, quando, após cinco anos de esquecimento, o Brasil reaparece sob sua pena[19], o fato ocorrerá num texto dado como "reportagem" – "En transatlantique dans la forêt vierge" –, publicado num jornal francês de grande difusão. E três anos mais tarde, em "Pénitenciers pour Noirs", além dos termos da redação do Jornal apresentando o artigo como reportagem e seu autor como jornalista, o próprio Cendrars se identificará como tal: "J'écris dans les journaux", diz ele a Febrônio.
Donde se conclui que, embora declare que a reportagem o entedia[20], o escritor não hesita em se mostrar como "escritor de jornal" perante seus leitores. O Brasil, com suas perspectivas de modernidade futurista, é certamente visto como um tema de atualidade geral, antes de tornar-se – para ele, ao menos – um motivo estético. "Voici enfin un pays qui bouge!", proclama Cendrars em sua primeira reportagem sobre o Brasil ("Devant les champs de café"). Com efeito, da "vertigem moderna" que representou a monocultura do café, ao famoso "filme 100% brasileiro" que esse "belo país" ter-lhe-ia inspirado, passando pelas "fotografias verbais" de Feuilles de route, a relação imediata que se estabelece entre o Brasil e a mídia parece não deixar dúvida.
O repórter e o "exote"[21]: um discurso sobre o Outro
Em segundo lugar, essa identificação de caráter "profissional" vê-se quase sempre acompanhar de uma outra, que indica sua posição de exterioridade em relação à realidade descrita. Assim, o artigo "Métaphysique du café", publicado, como já disse, num jornal brasileiro, está redigido em francês. Em "Pénitenciers pour Noirs", quando o autor-narrador diz a Febrônio que escreve para jornais, apressa-se ele em acrescentar: "Pas dans ceux d'ici, dans ceux de Paris". No texto "En transatlantique dans la forêt vierge", o sujeito da enunciação assume a posição de observador exterior ao texto: se o autor mantém certa distância em relação ao destinatário do texto – o turista francês –, que é designado pela terceira pessoa, tampouco procura ele identificar-se ao objeto de seu relato, o homem primitivo brasileiro.
Por outro lado, esse discurso que fala do Outro, revela incessantemente, por seus pontos de referência, um segundo discurso que se poderia qualificar de "retorno ao Mesmo". Assim, Febrônio, identificado no subtítulo de uma das seqüências como o Landru negro, vê-se também relacionado a Jack o Estripador, ao vampiro de Dusseldorf, a Weidman, e a Gilles de Rais – todos europeus, franceses na maioria. O espetáculo da vista noturna do Rio é, freqüentemente, descrito na sua relação com a "Cidade-Luz" – Paris. A igreja Nossa Senhora da Penha, no Rio, lembra a Notre-Dame de la Garde de Marseille; o Teatro Municipal da metrópole brasileira importa por ter visto triunfar em seu palco Louis Jouvet e Jean-Louis Barrault. O texto sobre o passeio na floresta joga sem cessar com os estereótipos antitéticos "ordem/desordem" e "disforia/euforia", que refletem a idéia pré-concebida que o Ocidente alimenta, há séculos, sobre o oposição Norte/Sul: o cruzeiro na Amazônia do texto de Cendrars se efetua a bordo de dois barcos italianos e um luxuoso steamer inglês, que efetuam a viagem em condições de salubridade absoluta, de conforto, de rapidez e de higiene – permitindo assim ao turista europeu aliar a atração gulosa à repulsa sanitária, que, de hábito, lhe inspiram os países considerados "exóticos" do Terceiro Mundo; a floresta virgem é apreendida na sua oposição à natureza cultivada e à paisagem cadastrada do Velho Mundo; o apelo da floresta é ouvido por esses civilizados perturbados, despertando seus instintos primitivos. Em suma, o texto insiste em explorar estereótipos – que constituem a mais partilhada competência cultural, o menor denominador comum aos membros de uma sociedade[22] –, e até mesmo clichês – que formam, como dirá Jauss, o "horizonte de expectativa" do leitor. Apesar de seu valor literário mais que duvidoso, esses elementos são utilizados aí como pontos de referência cultural para o leitor francês.
Vê-se pois que a posição aparente de Cendrars nesses textos – e portanto a imagem que ele próprio se forja junto ao grande público – é, primeiramente, a do repórter – esse emissor que fala em seu próprio nome, mas que é exterior ao assunto – e, em segundo lugar, a do "exote", que vê o Outro a partir de sua cultura própria, e que "degusta" a diferença entre si e o Outro. Para o leitor de jornal, tal imagem é, no fundo, uma garantia de credibilidade: o autor é visto assim como alguém que partilha sua cultura, e não a do Outro, e que portanto pode assumir o papel de representante do grupo social ao qual pertence. Por outro lado, a maneira pela qual Cendrars se apresenta nessas reportagens mostra que ele se coloca claramente na posição de colaborador prestigioso de jornais, alguém que foi um escritor famoso, mas que é agora um repórter brilhante e na moda.
Uma moda onde o exotismo ocupava um lugar de honra. Note-se, aliás, que na Histoire de l'édition française, Cendrars aparece como um dos escritores que abriram caminho para uma "para-literatura", que respondia plenamente a um certo gosto do público pelo exotismo, pela evasão, pelo imprevisto[23]. É nesse contexto que se situam, numa leitura horizontal, as "reportagens" brasileiras de Cendrars: um discurso sobre o Outro, onde o exotismo ocupa um lugar privilegiado.
No entanto, para compreender tal discurso na sua verticalidade, será necessário colocá-lo numa perspectiva histórica.
A imagem que Cendrars divulga do Brasil na França em suas "reportagens" brasileiras aparece pois, numa primeira leitura, estereotipada, feita em grande parte de clichês. Ora, essa visão exótica da realidade brasileira, introduzida na Europa já na época dos antigos viajantes, e consolidada aí sobretudo no início do século XIX, se insere numa tradição histórico-literária, que, como explicam os analistas, está na própria base da formação de nossa literatura à época do Romantismo, e que iria ser revalorizada nos anos 20 pelos modernistas brasileiros amigos de Cendrars.
Definindo-se não apenas como a entrada da literatura brasileira na Modernidade (como o foi nas literaturas européias), mas sobretudo como sua liberação, como a conquista de sua autonomia em relação aos modelos europeus que a haviam fundado, compreende-se que o Romantismo no Brasil se tenha constituído sobre bases essencialmente nacionalistas. É fato que a formação de nacionalidades é um fenômeno da época, que, em quase toda a Europa, encontrou igualmente no Romantismo sua melhor forma de expressão. Todavia, nos países novos, o nacionalismo foi manifestação de vida, tomada de consciência, substituição do Outro pelo Mesmo.
No Brasil, o sentimento de patriotismo despertado pela independência política, virá forjar um certo número de mitos nacionalistas por excelência, que serão elaborados literariamente na poesia e na prosa romântica, com vistas a criar uma imagem construtiva do país. Aliás, é precisamente aí que se encontra a natureza e a originalidade do nosso Romantismo. São eles (entre outros): mito da grandeza territorial, que está na origem de um certo sentimento de orgulho em relação ao país; mito da exuberância e da fertilidade da natureza, que, ao orgulho, vinha acrescentar a esperança em um grande futuro econômico; mito da igualdade de todos os brasileiros, independentemente de sua origem, que dava a pressupor uma identidade intrínseca mais rica; mito da hospitalidade e da grandeza de caráter dos brasileiros, que se traduzia num modelo humanitário de comportamento; mito da evolução cultural, de um povo que, em cinqüenta anos pretendia ter ultrapassado três séculos de colonialismo; mito, enfim, da famosa "paz otaviana" brasileira, perante uma independência conquistada sem derramamento de sangue – considerada a fortiori excepcionalnum mundo como o da Velha Europa, dominado por paixões políticas, no mais das vezes fratricidas[24].
Ora, são esses os temas que caracterizarão as "reportagens" brasileiras de Cendrars: da "immense forêt tropicale" ao "majestueux piton du Pain de Sucre", da "grandeur manifeste d'aujourd'hui" a "la beauté immuable de l'activité humaine", dos "hommes de tous les pays", de "toutes les races" aos "gratte-ciel de la ville de Saint-Paul", do "homme nouveau, le citoyen du Nouveau Monde" à "métropole de l'avenir" – e assim por diante –, todos os mitos românticos encontram-se aí mobilizados. Atitude néo-romantica, que se inscreve perfeitamente no espírito modernista brasileiro da época[25] – mas que entra também perfeitamente na mitologia pessoal de Cendrars. É aliás por isso que o Brasil se torna "sua terra de predileção", como dirá a filha e biógrafa, Miriam Cendrars[26].
Esses mitos, no entanto, o poeta irá explorar e elaborar de maneira inédita, colocando-os em ressonância não apenas com o mundo moderno ocidental, mas também com uma certa mitologia universal. É o que veremos a seguir.
Tema e perspectiva: uma "visão do espírito"[27]
Comecemos por observar que as "reportagens" brasileiras de Cendrars jamais se referem à atualidade factual imediata, mas, ao contrário, discorrem sobre temas de atualidade geral. Trata-se sempre de "reportagens intemporais", relacionadas não aos acontecimentos recentes, mas à vida quotidiana, às preocupações constantes do leitor. A distância geográfica e cronológica do tema em relação ao leitor francês vê-se assim compensada por outras formas de proximidade: existencial, antes de tudo, pelas reflexões sobre algumas das grandes questões humanas que esses textos contêm; psicológica, a seguir, nas referências aos instintos primitivos do homem (sobretudo em "Pénitenciers pour Noirs"); temática, enfim, pelas relações que estabelecem com a vida moderna em geral ("Le Brésil change de capitale"), ou mais particularmente a uma moda, como por exemplo as viagens exóticas ("En transatlantique dans la forêt vierge").
Além disso, não se trata nunca de reportagens no sentido estrito do termo (relato de fatos reais tomado ao vivo), mas sim de reconstituições (por vezes imaginárias) a posteriori e de artigos de comentário[28], que propõem uma análise mais ou menos objetiva do assunto e um julgamento pessoal – extrapolando no mais das vezes para a metafísica. Decorre daí que, se, por um lado, o estatuto referencial dessas "reportagens" não deixa dúvidas – elas dizem respeito a uma realidade de existência extralinguistíca atestada, exterior e anterior ao texto –, por outro lado, a autenticidade dos elementos que as compõem torna-se impossível de ser controlada – ao menos pelo leitor presumido. Assim, aquilo que deveria ser um relato de acontecimentos, fiel à realidade a que se refere, transforma-se em discurso de autor, fiel sobretudo ao sujeito da enunciação. Já que o tema lhe é imposto do exterior – pelas próprias condições de produção e de recepção do discurso jornalístico – o escritor-repórter vai privilegiar o único elemento que pode ele mesmo escolher: a perspectiva, ou como dirá o próprio Cendrars, "a visão do espírito", única maneira possível, segundo o autor, de dar conta da vida do universo, que é, ela também, uma "visão do espírito"[29]. E ele o fará com seu "temperamento de escritor": assim é que, contrariamente às regras de construção da reportagem, segundo as quais a escolha da perspectiva provém mais do domínio da "ginástica" do que da "arte"[30], para Cendrars tal escolha será certamente uma arte: a de fazer com que a perspectiva suplante o tema. Atingirá ele então aquela "significação geral" da atualidade, que é, segundo suas próprias palavras "o único testemunho verdadeiro que podemos dar da vida do universo, esse desconhecido".
Assim, a questão da monocultura do café no Brasil torna-se logo uma reflexão sobre a monocultura em geral, que transborda numa apologia – um tanto quanto irônica, a nosso ver – do progresso tecnológico e econômico da Modernidade no prolongamento das teorias materialistas do início do século (o taylorismo, em particular), prossegue sobre considerações sociológicas em torno das novas democracias do mundo moderno, para terminar com uma interrogação metafísica sobre o "verdadeiro sentido da vida: a confraternidade humana".
O cruzeiro na Amazônia responde a uma moda da época, a um gosto do público pelo exotismo, pela evasão, pelo imprevisto – com o qual, aliás, Cendrars joga magistralmente, explorando todos os elementos do exótico que compõem, para o leitor francês, a realidade brasileira: o longínquo e desconhecido, o estranho e misterioso, a beleza paradisíaca.
A história de Febrônio, como vimos, se insere de início no contexto mais amplo de uma reportagem sobre as prisões de negros no Brasil. Tal é, com efeito, o objetivo aparente do texto: a primeira parte se estende sobre a atmosfera reinante numa prisão do Rio de Janeiro – dada, além do mais, como típica de um certo espírito brasileiro – e insiste sobre as diferenças existentes com as da Europa. Significativamente, o trecho do texto publicado em coletânea que faz alusão aos três prisioneiros alcoólatras não consta da "reportagem": eram não apenas brancos, mas europeus. O caso de Febrônio sugere toda uma reflexão sobre a criminalidade dos negros na civilização moderna, e sobre o caráter esotérico de tal criminalidade, ligado às suas origens africanas. No mais, um toque de pitoresco para satisfazer o gosto do leitor pelo exotismo – mas também o gosto do autor pela escritura: o exotismo é, na verdade, o lugar por excelência da escritura de Cendrars, sua maneira pessoal de "degustá-la".
Vê-se assim criar-se uma "estética da reportagem" particular a Cendrars – que atingirá sua plenitude em "Le Brésil change de capitale". Um tanto quanto profético, o texto se constrói como um mosaico: da rede rodoviária do Brasil ao carnaval do Rio, do salto para a mitologia antiga ao mergulho na História do Brasil, da megalomania dos brasileiros à "oitava maravilha do mundo" que deveria ser a nova capital, as imagens se superpõem, num jogo de contrastes e de simultaneidades que empresta ao texto um efeito de espelho em relação à realidade que descreve, esse Brasil "despedaçado como um puzzle". Para um "país sedutor, todo feito de contrastes simultâneos", uma escritura igualmente sedutora, toda feita, ela também, de contrastes simultâneos. O tema designado da "reportagem" só aparece no final, e, no mais, acaba por se revelar como um simples pretexto: pretexto para analisar o fenômeno do gigantismo econômico e político do mundo moderno, pretexto para elaborar sob novas formas esse antigo mito da grandeza e do progresso do "Eldorado", pretexto para refletir sobre a megalomania em geral, pretexto enfim para se interrogar sobre o sentido da vida.
Como resultado, ter-se-á um certo número de fenômenos que contrariam formalmente as normas jornalísticas, em geral inevitáveis. Assim, por exemplo, ao invés de informar o leitor sobre um determinado problema referente ao Brasil, as "reportagens" de Cendrars mostram a maneira através da qual a descoberta da realidade brasileira participa da possível resposta a perguntas de ordem geral, tais como: a mestiçagem, os mecanismos sociais, as relações do homem com a natureza, os contrastes da Modernidade, e, até mesmo, os mistérios profundos da alma humana. O inevitável exotismo é, pois, utilizado, na verdade, como "isca", por assim dizer, para atrair o leitor francês, que será então mais facilmente levado a refletir sobre tudo aquilo que se esconde por trás dessa faceta superficial dessa realidade.
Por outro lado, essas "reportagens" de Cendrars raramente comportam datas. O caráter circunstancial, que caracteriza o gênero, desaparece. Os textos se tornam intemporais: não é propriamente a seus contemporâneos que o autor se dirige, mas sim à posteridade. É aliás o que lhe permitirá retomar esses textos, por vezes sem grandes remanejamentos, em coletâneas, que virão integrar sua imensa obra literária: as "reportagens" tornar-se-ão assim textos literários, e, como tais, sobreviverão à marcha do tempo.
*
Além da riqueza e originalidade que essa "estética da reportagem" própria a Cendrars revela, vemos aí, antes de mais nada, uma ocasião para o poeta de reencontrar o Brasil, esse "fantástico laboratório existencial" – para utilizar a feliz expressão de Alexandre Eulálio – que germinava há anos no fundo de seu imaginário, e que ele iria então recriar segundo seus fantasmas pessoais: caráter iniciático da realidade brasileira, que, por sua vez – como se pôde verificar aqui –, não oferece resistência alguma para entrar nessa mitologia. Ao mesmo tempo, na medida em que suas "reportagens" procuram, a partir de diferentes exemplos encontrados no Brasil, levantar questões de ordem geral e metafísica, mostra Cendrars à França a importância da realidade brasileira – muito além do simples exotismo que a tornara conhecida no Velho Mundo – para uma reflexão mais ampla sobre a vida, sobre o universo, em suma, sobre a condição humana.
[1] Publicado primeiramente no Brasil, com pequenas modificações, sob o título: "Métaphysique du café" (O Jornal, Rio de Janeiro, 15 de outubro de 1927), esse texto foi inserido em coletânea quatro anos mais plus tarde, com alguns acréscimos (La Métaphysique du café. In: Aujourd'hui ["Actualités"], Paris, Grasset, 1931).
[2] Inserido em coletânea dois anos mais tarde, levemente remanejado (En transatlantique dans la forêt vierge.In: Histoires vraies. Paris, Grasset, 1937), esse texto será posteriormente retomado em outro periódico (Marco Polo n°1, Monte Carlo, nov. 54), sob o título "Un paquebot dans la forêt vierge".
[3] Inserido em coletânea no mesmo ano, com várias alterações (Fébronio, Magia Sexualis. In: La Vie dangereuse. Paris, Grasset, 1938).
[4] Inserido em coletânea dois anos mais tarde,com vários acréscimos (Utopialand. In:Trop c'est trop. Paris, Denoël, 1957).
[5] A. EULALIO. A Aventura brasileira de Blaise Cendrars. São Paulo, Quiron, 1978, op. cit., p. 38.
[6] Como o lembra ainda Eulálio, essa febre dos grandes negócios atingira também, antes de Cendrars, Oswald de Andrade (cf. A. EULALIO, op. cit., p. 70).
[7] Cf. S. MILLIET. Cendrars: Fantasia e realidade. Diário Crítico, VI. São Paulo, Martins, 1960, retomado em A. EULALIO, op. cit., p. 195-197.
[8] Cf. A. EULALIO, op. cit., p. 23.
[9] Cf. Miriam CENDRARS. Blaise Cendrars. Paris, Balland, 1993, p. 497.
[10] Cf. A. EULALIO, op. cit., p. 31.
[11] Id., ibid.
[12] Por Carlos Augusto Calil, que, generosamente, ofertou-me um fac-símile.
[13] A. EULALIO, op. cit., p. 31.
[14] A ponto de produzir um veemente protesto, divulgado publicamente, por parte de grupos brasileiros que viviam em Paris (cf. A. EULALIO, op. cit., p. 31).
[15] As estórias brasileiras de Cendrars. O Estado de São Paulo, 11/05/57 (retomado em A. EULALIO. op. cit., pp. 204-206), p. 204.
[16] Id., ibid.
[17] Cf. W. MARTINS. Cendrars e o Brésil. (Revista do Livro, Rio de Janeiro, junho de 1960); S. MILLIET. Entrevistas de Cendrars. O Estado de São Paulo, 23/05/1952); retomado em A. EULALIO op. cit., pp. 215-222 et 199-200.
[18] Recordação de Cendrars. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 02/06/1962; retomada em A. EULALIO, op. cit., p. 230.
[19] Após o artigo de 1927, o Brasil reaparecerá em seus escritos por duas vezes apenas: num texto para o hebdomadário Cinémonde, intitulado "Une superproduction 100%...", publicado em abril de 1929 (que conta a história do famoso filme sobre o Brasil que Cendrars teria pensado em realizar durante uma de suas estadas entre nós), e no prefácio a L'Aigle et le serpent de M.L. Guzman (Paris, Fourcade, 1930), intitulado "L'actualité de demain" e retomado na coletânea Histoires vraies em 1937 (que reporta detalhes históricos sobre a revolução de julho de 1924, cujo início Cendrars assistira em São Paulo). Embora esses textos possam também ser considerados como reportagens, eles não entram em nosso corpus por não responderem a todos os quesitos da reportagem, conforme o esclarecido nas premissas deste estudo.
[20] Cf. Miriam CENDRARS. Blaise Cendrars, p. 468.
[21] Mantenho aqui o termo de Victor Segalen, em Essai sur l'exotisme (Paris, Fata Morgana, 1978), expressivo e de difícil tradução.
[22] Jean-Louis DUFAYS. Stéréotypes, lecture littéraire, et postmodernisme. In: Christian PLANTIN (org.) – Lieux communs, topoï, stéréotypes, clichés. Paris, Kimé, 1993, pp. 80-91), p. 86. Ver também nosso texto: "Exotismo e Alteridade: histórias brasileiras de Blaise Cendrars", Revista USP n° 38. São Paulo, EDUSP, 1998, pp. 178-184.
[23] Anna SAUVY. La littérature et les femmes. In: CHARTIER (dir.) – Histoire de l'édition française, t. 4: Le Livre concurrencé. Paris: PROMODIS, 1986, p. 250.
[24] Sobre as características do Romantismo brasileiro, remeto aqui aos especialistas, entre os quais: A. CANDIDO. Formação da literatura brasileira. Momentos decisivos. São Paulo: Martins, 1964. A. S. AMORA. O Romantismo. São Paulo: Cultrix, 1977; P.HAZARD. Les origines du Romantisme au Brésil. Revue de Littérature Comparée. Paris, 1:111-128, janv-mars 1927. M.C. MORAES PINTO. A Magnólia e a jandaia: de Chateaubriand à Alencar. Boletim Bibliográfico, São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, v. 47, n° 1/4, 1986.
[25] A própria reação da colônia brasileira de Paris por ocasião da publicação da "reportagem" sobre Febrônio constitui um excelente exemplo da permanência desse espírito nacionalista dos brasileiros. Alexandre Eulálio define essa atitude como "a exaltação patriótica ingênua da alta classe média brasileira instalada em Paris, ofendida no seu orgulho de cidadãos de um país civilizado" (op.cit., p. 31)
[26] Op. cit., p. 436.
[27] A expressão é do próprio Cendrars, no texto intitulado "Importance primordiale de l'actualité" (In: Hollywood, Oeuvres Complètes, vol. IV. Paris, Denoël, p. 413).
[28] Sobre os diferentes gêneros jornalísticos, ver, entre outros: J-L. MARTIN-LAGARDETTE. Les secrets de l'écriture journalistique. Paris: Syros, 1987, chap. IV.
[29] Certamente não foi por acaso que Cendrars publicou, em pleno meio das reportagens que remanejara para reuni-las em coletânea, essa espécie de "manifesto" da reportagem que é o texto "Importance primordiale de l'actualité", que representa, na verdade, uma verdadeira negação do gênero.
[30] Cf. BOUCHER, op. cit., p. 36.